segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013


               AS DESPEDIDAS      

 
 
 
                        I - A ALDEIA
 


Foz Tua, aldeia do concelho de Carrazeda de Ansiães no distrito de Bragança, em pleno Alto Douro vinhateiro.

Quem nunca visitou esta aldeia dificilmente compreenderá, e mesmo nem acreditará, qualquer descrição que dela possa ser feita, por mais completa que se faça. Foz Tua é uma aldeia pitoresca, encravada entre rios e vias férreas, na confluência dos rios Tua e Douro. Foz Tua deve o seu nome exatamente a este lindo rio afluente do Douro. Apertada pelas linhas de caminho de ferro do Douro e do Tua, e pelos rios, a povoação aparenta-se a uma longa cometa. Em vista aérea, Foz Tua confunde-se com os traçados dos rios ou mesmo das via férreas. É na realidade uma aldeia diferente de todas as outras porque toda em longura, uma simples faixa estreita de terra, que acolhe algumas casas na sua maioria de construção básica, nas quais, outrora, a madeira era preponderante.

A aldeia distingue-se exatamente pela sua posição geográfica porque nascida à beira dos rios. É de crer que os primeiros humanos que ali se fixaram o fizeram na parte inferior muito perto da foz. Mais tarde, com a aparição do caminho de ferro, a construção da via férrea roubou uma parte importante das terras ribeirinhas e impediu todo o alargamento da povoação. Mas o caminho de ferro também lhe trouxe um certo dinamismo e muitos empregos, daí que, sem o caminho de ferro a aldeia talvez já nem sequer existisse.

Aqui desagua o rio Tua, afluente da margem direita do rio Douro e daí o nome da desta terra estranha que é a Foz do Tua. A estreita faixa de terra obrigou a companhia dos caminhos de ferro a construír a estação a cerca de um quilómetro da foz, por um lado porque a faixa de terra era aqui mais larga e mais distante do rio, e por outro lado porque a futura linha em direção do interior da região e que íria ser paraléla ao rio Tua, apresentava aqui um declive importante e por isso era necessário prolongá-la o mais longe possivel da foz de maneira a atenuar esse mesmo declive. Estas duas exigências concluíram portanto a que a estação fosse construída longe da foz tendo em conta também que aqui nasceria essa outra futura linha. A estreiteza do vale do Douro é uma das carateristicas da linha de caminho de ferro que serpenteia o rio com uma única via na medida em que o espaço é de pouca largura e que em muitos casos apenas permite a construção da gare e de pequenas casas para habitação de maneira a permitir a instalação de pessoas à volta das estações. Uma grande maioria são estações que ligam as povoações limitrofes, estas por vezes situadas a vários quilómetros. Mas estas estações servem sobretudo para as quintas que neste vale do Douro são númerosas. Para elas, as estações têm uma importância capital, porque através delas transitam todas as mercadorias necessárias ao trabalho diário e sobretudo ao envio das pipas de vinho para o Porto.

Aqui, perto da foz do rio Tua, existia uma superficie de terra não muito larga mas mesmo assim suficiente para albergar umas casitas e criar um núcleo heterogeno que nem se poderia chamar aldeia, apenas um lugar adjacente à estrada nacional e à quinta viticola que receberia igualmente o nome de Quinta do Tua. A exigência de criação de uma linha de via estreita que ligasse a linha do Douro ao interior da região obrigou a companhia a construir uma estação em Foz Tua, mas evidentemente longe da foz de maneira a dispor de uma superficie suficiente e plana para criar as diferentes vias que seriam necessárias para o tráfico ferroviário futuro, assim como a construção de cais de cargas e descargas de mercadorias. Talvez porque foi instalada longe da foz, a companhia dos caminhos de ferro preferiu atribuir-lhe o nome de “TUA” ou talvez por simples vontade de simplificação. Note-se que a principal estação da linha do Douro chama-se “Régua” portanto a cidade que a alberga chama-se bem Peso da Régua! Aliás, há uma grande similitude entre estas duas estações. Tanto uma como a outra deram origem à construção de linhas de via estreita, na “Régua” a linha do Corvo, no “Tua” a linha do Tua. Esta via estreita entre Foz Tua e Mirandela rasgada através um vale magnifico mas também muitissimo estreito é uma obra de engenharia que muitos consideram das mais bonitas do país e que nos primeiros cinquenta quilómetros segue e sobranceia o curso do rio. Mais tarde a linha do Tua íria ser prolongada até à cidade Bragança, capital do distrito. Jamais via férrea teve um nome que colasse tanto ao rio que lhe deu alma.

A importância deste novo meio de transporte e o desenvolvimento que ele procura junto das terras mais recuadas, beneficia imenso Foz Tua, que a maioria chama e conhece simplesmente por “TUA”.

Durante décadas a companhia de caminhos de ferro de Portugal “CP” dá trabalho a dezenas de pessoas residentes no Tua. Portanto, aqui, como em todo o vale do Douro superior, é o trabalho da vinha que predomina. As quintas são efetivamente empregadoras de muita mão de obra, mas, de certo modo, também maioritáriamente trabalho sazonal. O Tua estando cercado por várias “grandes” quintas, os seus habitantes não têm dificuldade em arranjar trabalho. É um trabalho duro e mal pago mesmo assim todas as familias ganham os seus tostões que lhes permite sobreviver, num país e numa região onde a pobreza é uma constante na maioria dos lares. Em contrapartida, os que trabalham para a companhia de caminho de ferro recebem remunerações mais elevadas e por isso muitos são aqueles que tudo fazem para serem contratados. Ser funcionário da companhia além da remuneração é acima de tudo uma mais valia social pela aquisição de um certo poder adquirido nem que fosse únicamente pelo porte da farda. O grau mais elevado e por definição o mais respeitado é o de “Chefe de gare”, depois, na escala hierárquica, são os fatores de primeira, segunda e terceira categorias. Outras categorias existem que dão igualmente aos seus funcionários posições predominantes, “Chefes de distrito” “Chefes de lanço”, “Maquinistas, “Fogueiros”, “Revisores”, e mesmo o pessoal menos qualificado. Assim, simples mecânicos, agulheiros, carregadores, bagagistas, manutencionários de vias, são também postos de trabalho que permitem um certo desafogo económico e que muitos procuram ocupar.

Sabendo que o trabalho nas quintas não permite viver desafogadamente e que os postos de responsabilidade, como “caseiro, tanoeiro ou mesmo feitor, são reduzidos, trabalhar na estação é a vontade de todos. Sobretudo que certas funções ou categorias também dão acesso a mobilidade. Um fator aqui no Tua, pode muito bem evoluir e vir a ser chefe de estação algures, tanto na linha do Douro como na linha do Tua. E como essas categorias exibem bonitas fardas, estas são igualmente um atrativo porque quando alguém a veste é porque a merece.

A aldeia do Tua divide-se em duas partes distintas, e que possuem os seus defensores próprios.

Na parte de “cima”, como dizem os habitantes, há a estação de caminho de ferro com as suas enormes afluências de passageiros nas horas de chegadas e partidas dos comboios, e à sua volta algumas habitações mas também uma pensão e algumas tabernas. Graças ao caminho de ferro e ao número importante de viajantes que utilizam este meio de transporte, quase o único na época, permite a esta parte superior da aldeia, nomeadamente aos fins de semana, um maior poder económico.

Na parte de “baixo”, a parte mais bonita da aldeia onde desagua o rio Tua, a FOZ portanto, existe sobretudo a "escola primaria" o “correio” e a capela que abrita a sua padroeira, Nossa Senhora da Guia. Durante muitos anos a festa anual em sua honra foi realizada aqui, na “parte de baixo” junto à foz.

Entre estas duas partes distintas da povoação existem ainda dois ou três núcleos de casas, é o caso do “alto” uma denominação que nada tem a ver com a sua situação geográfica ou altitude. Situada a meio caminho entre a estação e a foz, o “alto” é um pequeno promontório sobranceiro à parte baixa e que penetra um pouco no rio como uma espécie de mini cabo.

Aqui, no Tua, a maior parte das casas situam-se entre as vias férreas e os rios Douro e Tua. Poucas existem “por cima das linhas” com é hábito dizer. Na “parte de baixo”, a foz portanto, a aldeia possuí mais ou menos carateristicas de “aldeia”, com casas de um lado e de outro da linha do Douro, e a quinta do Tua, que ela, é mesmo a norte da linha do Tua. Esta parte de baixo é particularmente caraterizada pelos dois bairros, chamados “bairro dos pescadores”, que é constituído de duas enfiladas paralélas de casas de madeira. O superior “bairro de cima”, muito perto da via férrea, que os habitantes utilizam para aceder às suas casas, o inferior, “bairro de baixo” situa-se junto ao caminho, a única via (rua) que permite percorrer a aldeia de lés a lés. No estreito espaço que separa as duas linhas, linha do Douro e linha do Tua, encontra-se a casa do correio, a escola primária, a capela de Nossa Senhora da Guia, a taberna do Joaquim “Fanhoso” e os armazéns da Quinta Inglêsa, firma Cockburn’s Smiths mas que se chama na realidade “Quinta do Tua”, e também algumas outras casas. A quinta própriamente dita, é ainda mais acima, vizinha da estrada nacional e da via férrea da linha do Tua. Para là chegar é necessário atravessar o viaduto da estrada nacional, e mesmo rentinho, a pequena passagem de nível da via estreita.

Na parte de cima, mais própriamente a Estação, além das instalações ferroviárias e do lindo prédio da gare, existem várias casas de habitação de parte de outra, uma maioria situando-se do lado sul, face ao rio. Rasando o cais da via estreita, a pensão e taberna de uma das familias mais poderosas da aldeia, a casa e taberna do chefe Marcos, assim como algumas casas, quase invisiveis, situadas nas traseira, e um pouco a nascente, a Quinta do Chousa e algumas casas da companhia nas quais residem ferroviários. Do outro lado da estação, entre o caminho e o rio, os alfaiates Tomas e Américo, uma taberna, um barbeiro, a fonte e algumas casas numa espécie de “rua” que desce até ao rio onde está instalada a bomba que fornece a água para as locomotivas a vapor. Um pouco a poente, várias casas de habitação, na maioria ocupadas por ferroviários, uma taberna e o quartel da GNR, entre outras.

Por fim, destaque-se o núcleo chamado “casas novas”, estas de construção recente destinadas a alojar os funcionarios da companhia, ao lado de uma ou duas outras jà existentes, e em pleno monte, a “nova” escola primária.

Na aldeia do Tua não há, nesta época do após guerra, pessoas consideradas ricas, mesmo assim, os mais abastados vivem perto da estação. Esta possui portanto o “poder” económico enquanto que a “foz” apenas possui o “poder” espiritual, se excluir-mos a Quinta dos inglêses.

Além do caminho de ferro, importante sem dúvida, e de algumas tabernas - demasiadas tendo em conta o número de habitantes - nada mais existe. Portanto, a aldeia deveria ser imensamente rica visto que possui na sua área geográfica propriedades viticolas que produzem imensa riqueza assim como as linhas de caminho de ferro que também lhe deveriam proporcionar uma mais valia. Mas, dessa riqueza os habitantes não vêm pataca. Resta a maior das riquezas que são os dois rios que a banham, e destes todos podem usufruir.

Em principio, as aldeias ou vilas que recelam tantos trunfos deveriam não só guardar os seus habitantes mas sobretudo atraír muitos outros. No Tua, passa-se precisamente o contrário. Em primeiro lugar porque é uma povoação encravada sem terras construtiveis e sem hipótese portanto de crescimento, em segundo lugar porque todos procuram uma vida melhor e mais confortável, e em terceiro lugar pelo declínio anunciado do caminho de ferro. Mas este declínio observa-se em todo o interior e particularmente nas linhas de via estreita.