AS DESPEDIDAS
I - A ALDEIA
Foz
Tua, aldeia do concelho de Carrazeda de Ansiães
no distrito de Bragança, em pleno Alto Douro vinhateiro.
Quem
nunca visitou esta aldeia dificilmente compreenderá, e mesmo nem
acreditará, qualquer descrição que dela possa ser feita, por mais
completa que se faça. Foz Tua é uma aldeia pitoresca, encravada
entre rios e vias férreas, na confluência dos rios Tua e Douro. Foz
Tua deve o seu nome exatamente
a este lindo rio afluente do Douro. Apertada pelas
linhas de caminho de ferro do Douro e do Tua, e pelos rios, a
povoação aparenta-se a uma longa cometa. Em vista aérea, Foz Tua
confunde-se com os traçados dos rios ou mesmo das via férreas. É
na realidade uma aldeia diferente de todas as outras porque toda em
longura, uma simples faixa estreita de terra, que acolhe algumas
casas na sua maioria de construção básica, nas quais, outrora, a
madeira era preponderante.
A aldeia distingue-se
exatamente pela sua posição geográfica porque nascida à beira
dos rios. É de crer que os primeiros humanos que ali se fixaram o
fizeram na parte inferior muito perto da foz. Mais tarde, com a
aparição do caminho de ferro, a construção da via férrea roubou
uma parte importante das terras ribeirinhas e impediu todo o
alargamento da povoação. Mas o caminho de ferro também lhe trouxe
um certo dinamismo e muitos empregos, daí que, sem o caminho de
ferro a aldeia talvez já nem sequer existisse.
Aqui
desagua o rio Tua, afluente da margem direita do rio Douro e daí o
nome da desta terra estranha que é a Foz do Tua. A estreita faixa de
terra obrigou a companhia dos caminhos de ferro a construír a
estação a cerca de um quilómetro da foz, por um lado porque a
faixa de terra era aqui mais larga e mais distante do rio, e por
outro lado porque a futura linha em direção do interior da região
e que íria ser paraléla ao rio Tua, apresentava aqui um declive
importante e por isso era necessário prolongá-la o mais longe
possivel da foz de maneira a atenuar esse mesmo declive. Estas duas
exigências concluíram portanto a que a estação fosse construída
longe da foz tendo em conta também que aqui nasceria essa outra
futura linha. A estreiteza do vale do Douro é uma das carateristicas
da linha de caminho de ferro que serpenteia o rio com uma única
via na medida em que o espaço é de pouca largura e que em muitos
casos apenas permite a construção da gare e de pequenas casas para
habitação de maneira a permitir a instalação de pessoas à volta
das estações. Uma grande maioria são estações que ligam as
povoações limitrofes, estas por vezes situadas a vários
quilómetros. Mas estas estações servem sobretudo para as quintas
que neste vale do Douro são númerosas.
Para elas, as estações têm uma importância capital, porque
através delas transitam todas as mercadorias necessárias
ao trabalho diário
e sobretudo ao envio das pipas de vinho
para o Porto.
Aqui, perto da foz do
rio Tua, existia uma superficie de terra não muito larga mas mesmo
assim suficiente para albergar umas casitas e criar um núcleo
heterogeno que nem se poderia chamar aldeia, apenas um lugar
adjacente à estrada nacional e à quinta viticola que receberia
igualmente o nome de Quinta do Tua. A exigência de criação de uma
linha de via estreita que ligasse a linha do Douro ao interior da
região obrigou a companhia a construir uma estação em Foz Tua, mas
evidentemente longe da foz de maneira a dispor de uma superficie
suficiente e plana para criar as diferentes vias que seriam
necessárias para o tráfico ferroviário futuro, assim como a
construção de cais de cargas e descargas de mercadorias. Talvez
porque foi instalada longe da foz, a companhia dos caminhos de ferro
preferiu atribuir-lhe o nome de “TUA” ou talvez por simples
vontade de simplificação. Note-se que a principal estação da
linha do Douro chama-se “Régua” portanto a cidade que a alberga
chama-se bem Peso da Régua! Aliás, há uma grande similitude entre
estas duas estações. Tanto uma como a outra deram origem à
construção de linhas de via estreita, na “Régua” a linha do
Corvo, no “Tua” a linha do Tua. Esta via estreita entre Foz Tua e
Mirandela rasgada através um vale magnifico mas também muitissimo
estreito é uma obra de engenharia que muitos consideram das mais
bonitas do país e que nos primeiros cinquenta quilómetros segue e
sobranceia o curso do rio. Mais tarde a linha do Tua íria ser
prolongada até à cidade Bragança, capital do distrito. Jamais via
férrea teve um nome que colasse tanto ao rio que lhe deu alma.
A importância deste
novo meio de transporte e o desenvolvimento que ele procura junto das
terras mais recuadas, beneficia imenso Foz Tua, que a maioria chama e
conhece simplesmente por “TUA”.
Durante
décadas a companhia de caminhos de ferro de Portugal “CP” dá
trabalho a dezenas de pessoas residentes no Tua. Portanto, aqui, como
em todo o vale do Douro superior, é o trabalho da vinha que
predomina. As quintas são efetivamente empregadoras de muita mão de
obra, mas, de certo modo, também maioritáriamente trabalho sazonal.
O Tua estando cercado por várias “grandes” quintas, os seus
habitantes não têm dificuldade em arranjar trabalho. É um trabalho
duro e mal pago mesmo assim todas as familias ganham os seus tostões
que lhes permite sobreviver, num país e numa região onde a pobreza
é uma constante na maioria dos lares. Em contrapartida, os que
trabalham para a companhia de caminho de ferro recebem remunerações
mais elevadas e por isso muitos são aqueles que tudo fazem para
serem contratados. Ser funcionário da companhia além da remuneração
é acima de tudo uma mais valia social pela aquisição de um certo
poder adquirido nem que fosse únicamente pelo porte da farda. O
grau mais elevado e por definição o mais respeitado é o de “Chefe
de gare”, depois, na escala hierárquica, são os fatores de
primeira, segunda e terceira categorias. Outras categorias existem
que dão igualmente aos seus funcionários posições predominantes,
“Chefes de distrito” “Chefes de lanço”, “Maquinistas,
“Fogueiros”, “Revisores”, e mesmo o pessoal menos
qualificado. Assim, simples mecânicos, agulheiros, carregadores,
bagagistas, manutencionários de vias, são também postos de
trabalho que permitem um certo desafogo económico e que muitos
procuram ocupar.
Sabendo que o trabalho
nas quintas não permite viver desafogadamente e que os postos de
responsabilidade, como “caseiro, tanoeiro ou mesmo feitor, são
reduzidos, trabalhar na estação é a vontade de todos. Sobretudo
que certas funções ou categorias também dão acesso a mobilidade.
Um fator aqui no Tua, pode muito bem evoluir e vir a ser chefe de
estação algures, tanto na linha do Douro como na linha do Tua. E
como essas categorias exibem bonitas fardas, estas são igualmente um
atrativo porque quando alguém a veste é porque a merece.
A aldeia do Tua
divide-se em duas partes distintas, e que possuem os seus defensores
próprios.
Na parte de “cima”,
como dizem os habitantes, há a estação de caminho de ferro com as
suas enormes afluências de passageiros nas horas de chegadas e
partidas dos comboios, e à sua volta algumas habitações mas também
uma pensão e algumas tabernas. Graças ao caminho de ferro e ao
número importante de viajantes que utilizam este meio de transporte,
quase o único na época, permite a esta parte superior da aldeia,
nomeadamente aos fins de semana, um maior poder económico.
Na parte de “baixo”,
a parte mais bonita da aldeia onde desagua o rio Tua, a FOZ portanto,
existe sobretudo a "escola primaria" o “correio” e a capela que abrita a sua
padroeira, Nossa Senhora da Guia. Durante muitos anos a festa anual
em sua honra foi realizada aqui, na “parte de baixo” junto à
foz.
Entre estas duas partes
distintas da povoação existem ainda dois ou três núcleos de
casas, é o caso do “alto” uma denominação que nada tem a ver
com a sua situação geográfica ou altitude. Situada a meio caminho
entre a estação e a foz, o “alto” é um pequeno promontório
sobranceiro à parte baixa e que penetra um pouco no rio como uma
espécie de mini cabo.
Aqui,
no Tua, a maior parte das casas situam-se entre as vias férreas e os
rios Douro e Tua. Poucas existem “por cima das linhas” com é
hábito
dizer. Na “parte de baixo”, a foz portanto, a aldeia possuí mais
ou menos carateristicas de “aldeia”, com casas de um lado e de
outro da linha do Douro, e a quinta do Tua, que ela, é mesmo a norte
da linha do Tua. Esta parte de baixo é particularmente caraterizada
pelos dois bairros, chamados “bairro dos pescadores”, que é
constituído de duas enfiladas paralélas de casas de madeira. O
superior “bairro de cima”, muito perto da via férrea, que os
habitantes utilizam para aceder às suas casas, o inferior, “bairro
de baixo” situa-se junto ao caminho, a única via (rua) que permite
percorrer a aldeia de lés a lés. No estreito espaço que separa as
duas linhas, linha do Douro e linha do Tua, encontra-se a casa do
correio, a escola primária, a capela de Nossa Senhora da Guia, a
taberna do Joaquim “Fanhoso” e os armazéns da Quinta Inglêsa,
firma Cockburn’s Smiths mas que se chama na realidade “Quinta do
Tua”, e também algumas outras casas. A quinta própriamente
dita, é ainda mais acima, vizinha da estrada nacional e da via
férrea da linha do Tua. Para là chegar é necessário
atravessar o viaduto da estrada nacional, e mesmo rentinho, a pequena
passagem de nível
da via estreita.
Na
parte de cima, mais própriamente
a Estação, além das instalações ferroviárias
e do lindo prédio da gare, existem várias casas de habitação de
parte de outra, uma maioria situando-se do lado sul, face ao rio.
Rasando o cais da via estreita, a pensão e taberna de uma das
familias mais poderosas da aldeia, a casa e taberna do chefe Marcos,
assim como algumas casas, quase invisiveis, situadas nas traseira, e
um pouco a nascente, a Quinta do Chousa e algumas casas da companhia
nas quais residem ferroviários. Do outro lado da estação, entre o
caminho e o rio, os alfaiates Tomas e Américo, uma taberna, um
barbeiro, a fonte e algumas casas numa espécie de “rua” que
desce até ao rio onde está instalada a bomba que fornece a água
para as locomotivas a vapor. Um pouco a poente, várias casas de
habitação, na maioria ocupadas por ferroviários, uma taberna e o
quartel da GNR, entre outras.
Por
fim, destaque-se o núcleo
chamado “casas novas”, estas de construção recente destinadas a
alojar os funcionarios da companhia, ao lado de uma ou duas outras jà
existentes, e em pleno monte, a “nova” escola primária.
Na
aldeia do Tua não há,
nesta época do após
guerra, pessoas
consideradas ricas, mesmo assim, os mais abastados vivem perto da
estação. Esta possui portanto o “poder” económico enquanto que
a “foz” apenas possui o “poder” espiritual, se excluir-mos a
Quinta dos inglêses.
Além do caminho de
ferro, importante sem dúvida, e de algumas tabernas - demasiadas
tendo em conta o número de habitantes - nada mais existe. Portanto,
a aldeia deveria ser imensamente rica visto que possui na sua área
geográfica propriedades viticolas que produzem imensa riqueza assim
como as linhas de caminho de ferro que também lhe deveriam
proporcionar uma mais valia. Mas, dessa riqueza os habitantes não
vêm pataca. Resta a maior das riquezas que são os dois rios que a
banham, e destes todos podem usufruir.
Em principio, as aldeias
ou vilas que recelam tantos trunfos deveriam não só guardar os seus
habitantes mas sobretudo atraír muitos outros. No Tua, passa-se
precisamente o contrário. Em primeiro lugar porque é uma povoação
encravada sem terras construtiveis e sem hipótese portanto de
crescimento, em segundo lugar porque todos procuram uma vida melhor e
mais confortável, e em terceiro lugar pelo declínio anunciado do
caminho de ferro. Mas este declínio observa-se em todo o interior e
particularmente nas linhas de via estreita.
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